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A Favela Venceu? Mesmo?

Nos últimos anos nós ouvimos a seguinte expressão: “A Favela venceu!” para representar quando um “favelado” conquista algo. Seja um carro, um bom emprego, uma casa e qualquer outra coisa que deveria ser básica, mas que para qualquer morador nessas condições é preciso se fazer MUITO esforço.

O que é uma favela

Favela é uma expressão que usamos para definir um assentamento urbano construído informalmente. Um aglomerado de casas precárias e barracos improvisados.

O cenário costuma ser agravado pela falta de infraestrutura, saneamento básico e uma enorme densidade populacional. O nome em português de Portugal ilustra bem a imagem que temos quando passamos por uma favela mais típica, bairro de lata.

Quando pensamos de forma ampla, essa definição do que significa uma favela pode ser verdadeira, mas numa realidade mais específica existem algumas particularidades que precisam ser observadas.

No Brasil do asfalto, favelas são culturalmente associadas aos morros do Rio de Janeiro. A imagem da gigantesca Rocinha com seus barracos de madeira, algumas casas sem acabamentos e outras em cores chamativas, é emblemática no imaginário de quem construiu sua visão da favela através da televisão.

A favela é mais que um lugar, é uma condição

Independente das diferenças entre cada uma das favelas e a falta de infraestrutura que usamos para categorizá-las, o conceito favela é muito mais amplo e tem mais impacto em seus habitantes do que um simples lugar de moradia.

Ser morador da favela representa mais que uma barreira na direção de um futuro melhor, na maioria dos casos é uma muralha praticamente intransponível.

Longe do asfalto, tudo funciona um pouco diferente. É uma escola sem aula porque uma criança foi baleada, é o trabalhador demitido porque não conseguiu sair do morro durante a operação policial.

Se para moradores das periferias comuns tudo já é mais difícil do que para os jovens de classe média e média-alta, um jovem que envia um currículo com endereço da Maré, no Rio de Janeiro, tem ainda menos chance de conquistar uma oportunidade no mercado de trabalho.

60% dos jovens de periferia Sem antecedentes criminais Já sofreram violência policial

Racionais MCs, Capítulo 4, Versículo 3

Ahhh mas quem é você Claudio para falar essas coisas?

Eu fui criado na favela da Vila Kennedy, no Rio de Janeiro. Por mais de 25 anos morei na VK. E já vi de tudo por lá, uma das lembranças mais fortes na minha memória é de ver um gerente do tráfego nos anos 2000 deitar em praça público em frente à uma UPP com uma ponto trinta (.30) em pleno sol de meio-dia e largar o dedo sem se preocupar se haviam crianças, idosos, mulheres, deficientes ao redor ou que poderia se ferir.

Fonte: https://www.dgabc.com.br/Noticia/151515/traficante-marcelinho-pqd-e-morto-no-rj-em-confronto-com-pms

A FAVELA TEM COR

E eu sei que algum cínico com sorrisinho de canto de boca vai dizer: mas branco também morre assassinado. Mas não é tão simples assim. Segundo o atlas da violência divulgado pelo IPEA, em 2018, O número de homicídios contra pessoas negras é de 71,5%.

E eu sei que um argumento recente para isso é que em 2019 o número de mortes violentas caiu em 22%. Mas infelizmente essa mudança não vem para todos.

Enquanto o governo do Rio de Janeiro anuncia que os homicídios dolosos caíram 21%, o número de mortes por intervenção policial aumentou 16%. No Brasil o aumento é de 18%.

Essas mortes por intervenção policial em grande maioria vem de incursões na Favela, onde grande parte dos moradores são, obviamente, negros. 76% dos mais pobres no Brasil são negros.

E pode parecer que é uma casualidade. Já ouvi explicação de que a população é pobre porque é preguiçosa ou morrem mais porque são mais criminosos. É muito fácil juntar estatísticas viciadas para justificar uma visão racista.

Irmão para quem veio da periferia TUDO é mais difícil. Absolutamente TUDO!

O morador da favela é um GUERREIRO!

Um dos comportamentos mais curiosos do mundo empresarial moderno é o uso de linguajar militar e expressões violentas para se descrever.

Num evento só com participantes brancos, o palestrante bate no peito e diz que são guerreiros. Os mais velhos vestindo terno e gravata, e os mais jovens de colete feito de pluma de ganso e sapatênis, todos se definindo como linha de frente de uma batalha. Tem sangue no olho, matar um leão por dia e o convite para a plateia a imitar urro de guerra espartano.

Ninguém se dá conta, mas foi dona Rita, que serve café vestindo uniforme preto e branco ao fundo do salão, quem passou por dois veículos militares blindados, viu dezenas de fuzis e foi revistada por um soldado enquanto saía do morro em direção ao trabalho.

A distância entre quem vive a realidade do asfalto e quem mora nas favelas distribuídas pelo Brasil é enorme, sendo muito difícil de fazer aqueles que nunca chegaram perto dessa realidade compreenderem que a própria estrutura como conhecemos muitas vezes não se aplica lá.

No momento da vida onde jovens estão terminando o amadurecimento psicológico e deveriam estar se preparando para entrar numa universidade, o jovem da favela já é economicamente ativo e ajuda na renda da casa.

Numa pesquisa no Rio de Janeiro, 85% jovens acima dos 18 anos declararam ajudar na renda de casa, 28% são a principal fonte de renda da família.

O morador da favela é acostumado a trabalhar desde cedo. Mesmo quando frequentam a escola, acabam exercendo algum tipo de atividade para ajudar em casa.

Eles são o caixa de mercado, a pessoa que faz trabalhos domésticos ou bico de serviços gerais. É quem empacota compras no supermercado, vende água no sinal, entrega pizza, faz moto-taxi ou qualquer outra atividade que trouxer uma grana para colocar comida na mesa.

Porque se existe uma realidade, é que mesmo nas famílias da favela que poderiam se encaixar como classe média, essa condição só existe por muito suor de todos de casa. Não tem moleza.

E claro que trabalhar é importante, mas parte da disparidade de oportunidades entre os dois mundos é acentuada neste momento. Quem começa a trabalhar muito cedo para ajudar nas contas de casa, dificilmente terá condições de estudar para cursar nível superior e construir uma carreira que no futuro será lucrativa.

Enquanto Enzo faz cursinho pré-vestibular para passar em engenharia, João Vitor passou o dia entregando currículo no centro da cidade e correu para fazer o bico de entregador de pizzas no início da noite. Quando Enzo se formar, suas chances de ganhar um bom salário são boas. Na mesma época, é possível que João Vitor continue ganhando praticamente a mesma coisa.

Mas essa distância nasce bem antes. Enzo, quando tinha 10 anos fazia aulas de robótica em sua escola particular, João voltava para casa, desviando de um corpo baleado no chão. Sua escola estava fechada porque a polícia estava em operação na favela.

Depois disso tudo eu te pergunto… A Favela Venceu? Será?

“A Favela só vence quando geral estiver no mesmo patamar.” Major RD

claudio
claudio
https://claudiogabilan.com.br

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